segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Isabella entre as flores do jardim


Pela janela
Vejo Isabella
Entre as flores
E as cores
Tão singelas
Do jardim.



Entre ela e elas,
Pétalas amarelas
E carmim.



Pela janela
Do jardim
Meu amor por ela
É assim:
Aquarela
De todos os amores
Que nunca saberei dar cores.  

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A solidão ao ler Pessoa


Agora estou pequeno
Como grão no pó
A sós comigo
Nau desenganada
Em atracadouro antigo.

O mar amigo
Tornou-se nunca navegado
Um verso de Pessoa me peleja
E abre em mim uma brecha.

Agora estou à toa e triste
Como ave que revoa
E ninguém assiste.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mundo Contemporâneo

— Amor, tira a roupa e deita aqui juntinho.

— Como?

— Tira a roupa e deita aqui, que eu estou pegando fooogo...

— Mas, assim, do nada...?

— É. Só tira a roupa e deita aqui. Mas não apaga a luz, tá?

— Com a luz acesa?

— É, pra eu poder ver...

— Pra você poder ver...?!

— É. Vai, tira a roupa e deita...

— Hã... é... Sabe... É que eu tenho... hã... vergonha.

— Vergonha!?

— É. Vergonha... Vergonha!

— Ah, deixa disso, amor. Vamo fazer gostosinho no claro.

— Mas por que no claro?

— Pra gente dar uma variada.

— Quer dizer que tá ruim?

— Não, amor, tá ótimo... É que... sabe? Uma coisinha diferente...

— Amor, cê quer dizer alguma coisa?

— Não. Eu só queria... Olha, esquece isso de luz acesa. Tira a roupa, apaga a luz e deita aqui juntinho, bombonzinho...

— Tá bom, mas eu vou apagar a luz, tá?

— Tá bom. Mas vem logo, vem...!

34 segundos depois:

— Calma, amor. Você está pegando fogo mesmo, hein?

— Derretendo! Vai, encosta aqui...

— Devagar... Olha, cê sabe que eu não gosto assim. Tem que ter um clima. Carinho, beijo... Uma conversinha de pé de ouvido...

— Tá bom. Vamo falar sacanagenzinha no ouvido?

— Sacanagem? Pô, amor. Eu pensei em algo mais romântico.

— Romântico como? Do tipo “eu te amo”?

— Não, amor. Isso é muito batido.  Eu queria uma conversa assim, sei lá... Mais... Romântica.

— Tá bom. Então me diz como foi teu dia hoje.

— Isso não é muito romântico.

— Eu só queria criar um clima de intimidade.

— Tá bom, vai, sem romantismo.

— Oba! Então coloca tua mão aqui, devagarzinho... Hum, tá vendo, que gostoso?

— Delícia.

— Agora, passa a tua mão por aqui...

— O que é isso?

— Comprei na sex shop.

— Você foi na sex shop? Sozinha?

— Fui. Por quê? Uma mulher não pode ir a uma sex shop sozinha?

— Pode. Quer dizer, pode?

— Claro que sim, amor. Vai, a gente discute isso depois... Pega aqui, vai... Isso, devagarzinho, que sua esposinha é muito delicada...

— Hã, hã. Tou vendo.

— Tá gostoso?

— Tá.

11 minutos depois.

— Nossa, amor, você estava uma fogueira, hein? Amor...? Amo-or...? Dormiu. Putz, como essa mulher dorme rápido depois que... Bom, o jeito é tomar cerveja e ver o futebol sozinho mesmo! 

Sem título. Theo Costa.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A velha no portão

Te encontrei, Ana,
Na esquina distraída dos acasos.
Compravas teu cigarro desinteressadamente,
Como se cumprisse a liturgia dos atos pequenos.
Falaste de Londres, da mudança de trabalho,
E o teu pai adoecera no último mês
— nem parece, um dia, repartimos sonhos.

A despedida foi igualmente banal:
Com o desespero estrangeiro das palavras
Trilhamos acenos de caminhos contrários 
— folhas caídas que a velha absorta no portão se encarregará de varrer.


sábado, 21 de maio de 2011

A peleja do Leão da Ilha contra a Cobra Coral – Canto II

A contação é uma lembrança,
E o que conta, um lembrador
Que se lembra e não se cansa
De contar com ardor.
Com a fé e a esperança
A verdade ele alcança
Esteja ela onde for.


Cante o causo o contador.


O causo é o Santa Cruz
Tornado o campeão
Num domingo cheio de luz
Pra quem é da “multidão”
A torcida faz jus
O time todo reluz
E ofusca o Leão.


O causo cante o cantador, então.


A tranquila cobra coral
Entrou em campo na vantagem
Podia jogar mal
E perder de 1 na contagem
Que chegaria ao final
Campeão estadual
Sem maior atropelagem.


Cante o causo o contador, sem fuleiragem.


O Leão até tentou
Chegou avante alguns momentos
Mas o gol não logrou
E a luta virou tormento.
Quando o jogo se acabou
O tempo se fechou
E o campeonato teve encerramento.


Cante o causo o cantador atento.


Futebol é uma paixão
Que provoca debate
Discute-se com a razão
E não se faz alarde
Santa Cruz é campeão
Mas da torcida do Leão
Eu ainda faço parte.


O cantador que cante sua arte.


Porque triste é a torcida
Que não tem pra quem torcer
Aí fica na peitica
Só dizendo por dizer
O Leão merece a zica
Porque hexa ele não fica
Disso não quero saber!


O cantador que cante causa rica.


Mas a verdade também existe
Na opinião de cada qual
Assim sendo, triste
É o fim de qualquer final.
Pra uns, é fazer chiste
Pra outros, comer alpiste
E levantar sua moral.


O cantador que cante o que assiste.


Termino essas sextilhas
De maneira seminal
A Série B já se engatilha
É preciso não acabar mal
(futebol é armadilha).
Assim foi a peleja do Leão da Ilha
Contra a Cobra Coral.