sexta-feira, 17 de setembro de 2010

10 coisas que você nunca pode deixar de fazer na sua vida

1. Brincar com seus filhos
Filhos, quando bem criados, são uma doce dor de cabeça, a sua continuidade existencial na efêmera passagem pela Terra, a gárrula transgressão à onipotência do esquecimento (me empolguei). Por isso, uma horinha de brincadeira todo dia vai fazer bem a você e a eles: a você, por te proporcionar uma volta à infância (para resolver pendências ou reviver velhos e bons tempos); a eles, por construir boas lembranças para o futuro.
 
 
2. Brincar com seu cachorro ou gato (ou jiboia, lagarto, iguana...)
Gato cearense brincando com o dono
Dedicar uns minutinhos a quem sempre te honrou com devoção quase incondicional também faz bem para você e para seu bichinho. Afinal, para que você resolveu viver com esse animal (estou falando com o bicho).

3. Sorrir
Sorrir faz muito bem. Exercita os músculos do rosto, prevenindo o envelhecimento, desestressa e torna os problemas menores. Só tenha cuidado para não exagerar e ficar às gargalhadas quando a privada entupir.

4. Chorar
Apesar de o mundo cobrar sempre que você seja o(a) melhor, o sucesso, o bem-sucedido, dirija o melhor carro, compre mais e melhor, as pequenas e até as grandes desventuras são elementos constituintes da felicidade. São elas que nos levam a questionamentos muitas vezes importantíssimos em nossas vidas. Por isso, arranje um tempinho para chorar quando achar que deve, pois ajuda a aliviar a alma. Porém, mais uma vez, não exagere, para não se tornar um xarope com prazo de validade vencido.

5. Amar
Já dizia o poeta: “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”. Amar é o princípio de tudo: da gentileza, do bom humor, da saúde, do crescimento pessoal, da cabeça boa. Amar no sentido amplo, claro!, como se ama a(o) sua(seu) companheira(o), os amigos, os parentes, a natureza. Só tenha cuidado para não ser amoroso em excesso, do tipo: “Olha, um cocozinho de cachorro na porta da minha casa! Que lindo! Amo vocês, cachorrinho e cocozinho”. Não pega bem, né?

6. Fazer sexo

Polêmico. Muitos diriam esse tópico deveria estar em Amar. No entanto, como os(as) pacientes leitores(as) desse blogue já são maiores de idade, podemos falar abertamente: nem sempre a gente ama quando faz sexo ⎯ o que, obviamente, não deixa de ser saudável. Então, o conselho é: seja amor, seja sexo, vá em frente (depois para trás, depois para frente, depois para trás, depois para frente...)!

 
7. Praticar atividade física
O corpo, como você já deve ter percebido, fica adiposo e disforme quando não se pratica nenhuma atividade física. E o mais incrível é que existem muitas atividades saudáveis para você evitar distorções indesejadas no espelho: caminhada, bicicleta, corrida, boliche, futebol, vôlei, tênis, skate, musculação, aeróbica, montanhismo, rapel... Mas atenção: não valem levantamento de copo, arremesso de bituca de cigarro, escravo de jó e outros do gênero.

8. Estar entre amigos
Turminha da facul em trajes típicos para biritar no Bigode

Estar entre amigos é uma atividade muito prazerosa ⎯ embora quase sempre implique ressaca. É com os amigos que você se informará sobre as últimas coisas inúteis da internet, que você ficará sabendo o que fez aquele amigo que não está presente, que você se inteirará sobre as mais novas piadas da moda, que você saberá o que se anda lendo e quais lugares estão sendo considerados descolados. Por isso, sempre que você puder, esteja entre amigos, de preferência na mesa do bar, local onde brotam assuntos jamais observados em outros ambientes.


9. Estar só
Estar só quando não se quer é terrível. Porém, estar só por opção é ótimo. Experimente um tempo a sós com você mesmo, escute seus silêncios, suas músicas, seus vídeos porn... quer dizer, preferidos. Você vai se surpreender em saber como você é estranho. E mais ainda em saber que todos são. Porém, mais uma vez, cuidado com exageros: o último amigo meu que resolveu morar só para se conhecer melhor fugiu de casa.

10. Ler o Diário das Marés

O mais evidente de todos os tópicos, não merecendo inclusive nenhum texto complementar. No entanto, é importante salientar que outras leituras igualmente cultas também são válidas, como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Raduan Nassar, Miltom Hatoum, Dostoiévski, Jorge Luís Borges e, obviamente, a lista de blogues aqui ao lado.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nova expressão

A arte que germina ainda
Em forma indefinida e
Silenciosa adorna e incita
Pré-grito em gargante desatenta.

Lenta levanta e calma
Desatina o erudito
Um mito que se isenta na surdina
Da palma da mão.

Como um não em sala unânime
Será escrita em verso inverso
A prova cabal será a prosa
Uma rosa que não cala e vibra

E depois do depois de amanhã
Como velhos revolucionários
Serenos na mudez do tempo já passado
Até que nós se restem, apenas,
A veste
         a voz
                palavra
                            e vento.

* Poema publicado no livro Lua de Iêmen, Lua de Bengala.

domingo, 22 de agosto de 2010

O filho torto

Foto: Malthus
Há tantas pedras, pai, e tantos nomes que não ouso chamar isso de pedra ou nome, tão intensa a cadência e o pulsar das cores do jardim, no canto do muro, que ela – magma – regava. E a água – pai – em correntezas exorbitantes e despreocupadas (lembro que pretendia, qualquer dia desses, falar da situação da água do mundo), e eu vinha já emocionado pelo silêncio dos escapes dos carros, uma trégua permitida nesse jardim, contrapondo a rua ao evangelho que falavas, eu tu ela eles e os outros sentados nas madeixas do nosso cordão umbilical, no teu colo – sei que ela gostava das coisas arrumadinhas, cada lance na sua hora –, quando procurei o calor e o conforto de tua réstia vi paredes úmidas, o musgo esverdeado do banquinho da cozinha, sussurrando um segredo que se estendia por todos os quarteirões e oitões que pude conceber, “no interior é assim, filho”, e eu quis partir, eu sozinho, subindo estas escadas, quase criança novamente, mas ainda me virei e vi a distância e a pedra da tua ausência – estranho voltar agora, eu sozinho ainda descendo essas escadas –, a mãe do lado direito, ela eu os outros não mudamos – pai ou pedra para quem falo agora? essa coisa sem nome que não pode ser grafada nos tijolos dos andaimes, no meu antigo quarto de dormir, “e também não quero, sabe, melhor seguir adiante”, nossas brigas são tão pequenas agora, e ando cheio dessas horas de vigília, não sei se descubro mais com as coisas que deixaste ou com as que escondeste dela esse tempo todo – eu tu ela os outros, pensei, pai, éramos eternos, como os evangelhos, e não como uma família qualquer –“no interior é assim, meu filho, a gente andava muito pra conseguir água”, e tu trouxeste isso, pai – água bebida compõe a gente –, essa ânsia que eu também carregava de sair de casa, como há quarenta anos tu saíste e todos estranharam a ausência dela – na poltrona da sala, a mãe se sentava todas as tardes para vigiar nosso dever de casa, ela os outros eu desenhando igrejas, pai, com a tua ausência, confessando os teus pecados, “trocar a família por uma rapariga de beira de estrada”, “no interior é assim, meu filho”, lembro vagamente disso e de São Marcos no banquinho, a Gênesis debaixo do braço, o novo e o velho eu ela os outros testemunhando a bondade, que só a bondade e a caridade poderiam te trazer de volta, a mãe na poltrona da sala, me vendo crescer odiando esse amor bondoso, queria o mundo – pai-pedra – que negaste (eu achava, pelo menos, hoje entendo), que eu cria escondido na tua ausência, digladiando-se a verdade e a poesia do amor – a partida do pai e a felicidade dele longe, nos braços da rapariga (hoje entendo, pai, hoje entendo; o amor tem seus contrários, mas a mãe não!, ainda perdoou quando voltaste), eu já estava longe, perdido no mundo, pedra, pai, foram mais de trinta anos no meio do mundo, quase treze detenções, mas cumpri o meu destino, minha ausência era a tua, eu imaginava, e minha morte não veio, tive chances, apanhei da polícia debaixo daquela ponte, engoli pedra, revolvi meu ódio contra tudo e jurei matar aqueles filhos da puta que me fizeram fêmea na prisão, à força, que eu não queria jamais ser a rapariga do pai, aquela égua que deixou a mãe distante, levantando a mão para esperar o retorno de Jeová, puta de pastor, ia lá em casa pra fazer culto particular, nada disso eu queria nem o senhor, pai, hoje entendo, mas não saberia te responder a isso que é sem nome, que é pedra, e que eu procurei tanto nos meus desertos, a vida tatuada em minhas vísceras vermelhas e já esverdeadas pelo mofo das virtudes que eu não tenho, pai, pedra, chão, perdão por não as ter, aliás, ou por não ter nenhuma daquelas coisas que o senhor falava para ela, eu os outros na mesa de jantar, tu, pai-mármore, a parábola do filho torto que era eu, saindo de casa pros braços do mundo, mas você ficaria orgulhoso de ver meus filhos crescendo, tenho minha casa, minha mulher, minha rapariga, tomo minha cachaça por aí, pai-pomes, a força, a semente, fé na eternidade, porque eu não suportaria olhar pros meus irmãos e não vê-la, os outros ela eu como hóspedes de Deus, sonho, enchente, berço debaixo da terra talhado por artesãos inauditos e que o tempo friamente resolveu te chamar fim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Comentários Musicais

Em publicação recente sobre a vida e obra de Raimundo Carreiro, Anco Márcio, professor do Departamento de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, recorre a Eugênio Evtuchenko, “um esquecido poeta russo”, para lembrar que “A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas”.

Em parte verdade – pois, tal como Anco, no mesmo texto, não desprezo outras fontes documentais, como entrevistas, artigos, cartas e a fortuna crítica sobre o autor –, esse axioma pode ser aplicado na apreciação da música: ouvir a obra de um autor é o primeiro passo para conhecê-lo.

Acho bem interessante conhecer trajetórias de vida, influências, o que um autor diz sobre si e o que se diz sobre ele. Uma obra artística não existe sem contexto. No entanto, sua força não pode ser mensurada apenas pelas referências externas.

É o caso de Victor Lemonte Wooten, multi-instrumentalista norte-americano e um dos baixistas mais premiados do mundo. Elogiado principalmente pelo seu virtuosismo, ouvir Wooten é uma experiência nova e instigante, pois sua musicalidade parece encerrar em si um significado novo para a música instrumental contemporânea. Reunindo uma miscelânea de tendências, Wooten criou um estilo próprio de tocar, extremo, no qual o signo musical se prolifera em frases, ritmos e harmonias pouquíssimo vistas em um baixo elétrico (aconselho uma busca rápida na internet para vê-lo tocando).

Wooten começou sua carreira na Wooten Brother Band, junto com seus quatro irmãos mais velhos Regi, Rudy, Roy e Joseph, seguindo depois para o aclamado Béla Fleck and the Flecktones, com o grande “banjista” Béla Fleck. Participou de outros grupos não menos importantes, como o Bass Extremes, o The Vital Tech Tones (com Scott Henderson e Steve Smiths), o Extration (junto com Greg Howe e Dennis Chambers) e o SMV (com os lendários Stanley Clarke e Marcus Miller). Sua carreira solo é marcada pelos discos A Show of Hands (1996), What Did He Say? (1997), Yin-Yang (1999), Live in America (2001), Soul Circus (2005) e Palmystery (2008). Do seu currículo, constam três prêmios de baixista do ano pela revista Bass Player e cinco prêmios Grammy Award.

Mas, como disse, as referências externas são só pistas. Assim, para apreciação do paciente leitor, disponibilizo neste post um versão acid jazz que o Béla Fleck and The Flecktones, banda que proporcionou visibilidade a Wooten, fez para um clássico dos Beatles, Michelle.

(Um curiosidade: o nome da marca do baixo do cara é Fodera. Coincidência?)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007


Poderia ser um Mondrian, mas é apenas o meu quarto. Cheio de linhas, confortando a geometria dos meus sonhos.