quarta-feira, 29 de maio de 2013

Haicais da maledicência urbana



Festa no vizinho.
Quisera ser
Um frio assassino!

Olhando o céu
E seu esplendor
Pisei no cocô!

Estendida a mão.
Preparei uma esmola,
Mas era um ladrão.

Esbarrei, a esmo, na rua.
Ela sorriu
E me mandou pra puta que pariu!



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pessoas vão

Aos poucos e sempre, as pessoas vão.

A toda hora, por estradas, ruas, portas abertas...
Espremidas nas calçadas, penduradas nos apartamentos.
Contando histórias de lástimas e prazeres
— o que somos, além da metáfora de nós mesmos?

Amigos de longas datas se perdem nas agendas lotadas.
Amores eternos não duraram catorze versos,
E os próprios sonetos adormecem,
Como os sentimentos que repousam numa rima passageira.

Mas não há remédio:
É preciso ir, sempre.
Amanhecer novas lembranças,
Desaprender mágoas antigas,
Chorar outras feridas,
Aprender com o tempo redesenhando os espelhos.

E é tão imperioso ir
Que há, em cada ausência,
Um exercício de vazio insubmisso
Reinventando a permanência.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cotonete


Nas ruas daquele bairro popular,
Cercado de unidades habitacionais populares,
Por entre as réstias de um poente indefinido,
Esgueiravam-se os passos arredios
Do vulgo Cotonete.

Pesava em suas costas,
Implacável como um destino,
Uma carroça maltrapilha
Com a qual recolhia, simples e horrível,
Dizeres coloridos de embalagens e lixo.

Não sei ao certo com que paixão descabida
Semeou seus passos com descida,
E em que inferno amigo
Repousam as alegrias de menino
Quando a vida ainda era um jogo no campinho
E podia-se desenhar flores pra vizinha.

Hoje me chama de doutor;
“Quem me dera”; lembra da velha
Da rua de trás, sempre reclamando
Da bola na janela.
“E fulano, a quantas anda?”
“Fulano já não anda,
Também beltrano...”
— nomes agora são distâncias...

Despediu-se como era:
Uma sombra na paisagem
Uma pegada apagada na areia
Um plano de felicidade
E um discurso de esperança:
“Se Deus quiser, doutor... Se Deus quiser...”.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Um vulto na janela


De tanto olhar desta janela
Desaprendi de ver as coisas mais primeiras, mais sinceras.

Assim o pôr do sol, com toda sua
epistemologia dramática de cantos poéticos,
Se tornou apenas um amarelado no céu
Agonizando nos braços de uma inútil rua deserta.
As grades góticas do portão da frente
Adormeceram em horas monótonas de balançado na cadeira.
E até mesmo as flores de existência inesperada
Viraram um pó sujo desgraciando a calçada.

Perdi de ver ali, logo à frente,
A naturalidade das pedras antigas
Arrebentando à força dos pés descalços
Que lutam contra o tempo.
E eu mesmo me converti
Em parte irreparável deste todo imergido.

Agora, já não sou quem observa
E sim um hábito.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Um tipo de amor


Há um tipo de amor
Que não termina
Transforma-se em ruína
E vai morar no desamor.

Esse amor, que se senta na sala
Bebe cana na cozinha
Arruma as malas
Volta no outro dia
E se cala...

Amor que leva tapa
E desrespeita a autoestima
Que se empapa de aveia
Seca o néctar da alma
Não se acalma nem depois do gozo...

Amor que se sublima
Na forma canina:
Servidão, idolatria...

Uma porra de amor
Que não acaba
Nem quando termina...