sábado, 21 de agosto de 2021

Aquele bordô

 

Aquele bordô

                                                                               guardado há mais de vinte anos

era lembrança que Glória guardava da França, quando lá esteve nos idos dos anos 80

                sua última viagem com Chico

                               mostrava fotos, sorriam: Chico, seu grande amor, os irmãos, amigos mais próximos, a Torre Eiffel, o Sena... Tempos depois, Chico adoecera. Glória sentiu. Envelheceu. Quando Chico se foi, era Glória já uma senhora frágil, embora ainda sorridente. Contava as viagens, lembrava, apontava nas fotos, Paris era uma festa...

                O bordô ficava no bar da estante, na sala.

Glória havia parado de beber, nunca fumara, mas orgulhava-se do bordô

                mostrava detalhes do rótulo, lembrava.

                               Aquele bordô

                                                               desconfio

                era um troféu, ao fim. Glória exibia-o a todos, filhos, netos, bisnetos. Lembrava Paris, uma festa, esquecia alguns detalhes, nomes, descrições, a cor dos olhos de seu primeiro marido. Chico tinha ciúmes, mas adorava seu longo lilás, com renda francesa que ela vestia agora

                                               broche de pérolas acima do busto, brincos e colar combinados com o broche. Uma maquiagem discreta e elegante punha-lhe na face certa volúpia discreta.

                Ligou o som.

                                                               I love paris in the spring time

I love paris in the fall

                               Chico se aproximou.

                — Um bordô? — Glória alegrou-se.

                — É que você fala tanto nele...

                                                               Beberam, dançaram. Depois, sentaram-se à mesa, conversaram alegremente, de pilequinho. Glória mostrou-lhe as fotos; Maurinho, o mais brincalhão dos irmãos; apontou, sorriu, bebeu

                                                               de pilequinho

                               A enfermeira avisou a hora.

                — Dona Glória, já é tarde. Precisamos desligar o som.

                                               feliz

                                                               feliz

                — Sim, entendo perfeitamente.

                A enfermeira sorriu.

                — Dona Glória, dona Glória, a senhora é muito danada!

                                               feliz

                                                               feliz

                — Uma espoleta, minha filha.

                Sorriram. A enfermeira levou-a ao quarto.

                                               feliz

                                                               feliz

                — Feliz aniversário, dona Glória.

                Entregou-lhe uma pequeníssima caixa, cuidadosamente embrulhada para presente. Nada caro, como a senhora estava acostumada. Uma lembrancinha, barata, do meio da rua, uma bijuteria que Glória segurou com alegria

                                               feliz

                                                               feliz

                — Obrigada!

                Fechou a porta, pôs o bordô no bar da estante, garrafa deitada. Na cama, Chico a esperava, ansioso.

domingo, 21 de março de 2021

Canção cavalaresca pr’uma alma decaída

Nem só de estupidez

São os atos estúpidos.

Pergunte a quem fez:

 

 “Doença grave se avizinha;

Que faremos, capitão?”

“Nada! É uma gripezinha!”

 

“Mas mata aos montes

Nos países por que passa.”

“Conversa da imprensa, trapaça!”

 

“Senhor, estão os nossos a morrer;

Em breve, serão pilhas.”

“Milagres, não posso fazer.”

 

“Senhor, não seria razoável

Nos precavermos com vacina?”

“Jamais! Temos cloroquina!”

 

“Mas, senhor, que funcione

Não indicam as pesquisas.”

“Pouco importa! Vale a futrica!”

 

“Precisamos de medidas profiláticas.

O senhor deve liderar a nação.”

“Pronunciarei contra máscaras

E em prol da aglomeração.”

 

“Indiligente! Morte o povo sofre

Faltará oxigênio...”

“Não pra quem não é pobre.”

 

“Desalmado! Como... Como

podes ser tão vil?”

“Cala, ou processo ponho-te!”

 

“Não te abala

Que mal faças?”

“Cala, que me pagas!”

 

“Foges ao dever!

Te acovardas! Prevaricas!”

“E tu és um maricas!”

 

“Governadores, a ti,

Pedem ajuda.”

                “Mimimi.”

 

“Insisto, capitão: a ti

Recorrem os que precisam.”

                “E daí?”

 

“Ainda uma vez, mandrião:

Acode os hospitais!”

“Cancelei o kit intubação.”

 

“Clamam-te mito, és um rato.

Serás julgado tempo além.”

“Para livrar-me de tal fato

Ponho a culpa em alguém.

 

E se ainda me afrontas

Com termos de baixo calão

Sejam tais palavras tua perdição:

Processo-te por ferir-me a honra.”

 

“A honra? Que honra, ressentido?

Ditador, pulha, alma decaída,

Delinquente, asno, pequi roído,

Cretino, parvo, genocida.”

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 amar

                de repente assim rebento

como a luz do sol nascendo o mar

                amar imenso

 

também amar o pequeno

                mergulho provisório

amar os fluidos

                               flatos abraços o tédio a fúria

                                               o amargo

                amar cura

 

descortinando grutas submersas

dissimulando desvendar mistérios

               

mesmo pouco amar o tempo

     e no limite do fôlego

              até o mais em nós atento

                   amar profundamente adentro

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Futuro

 o futuro pode ser lindo

sentaremos a uma grande mesa

                               compartindo

negrxs, pardxs, amarelxs

                bichas, sapas, héteros

sonhos comuns ao planeta

 

                               pode ser

 

por enquanto, temos

rifles e supremacistas

desfile de polícia aos trancos

marcha pacífica à mira

pretos e prantos

 

tudo pode ser lindo

mas temo

secretamente

que o futuro seja um plano

                               continuado do presente

sábado, 15 de agosto de 2020

Assalto

Rua pouco movimentada no Recife, começo da noite. Uma mulher anda apressada, quando surgem dois homens.

— Passa o celular!

Ela, tomada de susto:

— Calma, moço, vou passar.

— Anda, passa logo!

— Vou passar, moço, calma. Mas, antes, o senhor poderia se afastar um pouco.

— Quê!?

— Se afastar (repete enfatizando a pronúncia das sílabas por baixo da máscara).

Os homens se olham confusos. Ela continua.

— Um metro e meio, no mínimo. Distância segura.

— A senhora tá doida, é? Distância segura de quê?

— Meu filho, você vive na lua? Distância segura do corona.

O outro dá uma risada nervosa.

— Do quê?!

— Do coronavírus.

— Que corona o quê, minha senhora. Passa logo esse celular!

— Eu já disse que vou passar. Só quero que vocês mantenham uma distância segura...

— A senhora é doida mesmo, viu! Tá querendo problema, é?

O outro emenda:

— Além do mais, esse negócio de corona é coisa de comunista! Eu tou ligado na senhora!

— Engano seu, meu amigo. Isso é uma questão mundial de saúde.

— De saúde o quê, minha senhora. Isso é mentira da mídia, da Globo. Querem é derrubar o cara...

— Você é que pensa! Tem um monte de gente morrendo... (Ela altera a voz. O mais alto reage com firmeza:)

— Calminha aí, segura tua onda.

— Eu estou calma. Só quero que as coisas corram em segurança.

— Ó, seguinte: vamo parar com a brincadeira e resolver isso logo, com corona ou sem corona: passa o celular! (Enfatiza a pronúncia das sílabas.)

— Vou passar, mas o senhor pode virar o rosto pra lá quando falar? Pra não respingar saliva... (Enquanto diz isso, afasta os dois com a mão.)

— Mas a senhora é abusada, né não? Passa logo esse celular.

Ela tira o celular da bolsa e já ia entregando, quando:

— Eita, ia esquecendo.

Tira da bolsa um spray, espraia no celular.

— Que porra é isso? — o mais baixo fala, com cara de incrédulo.

— Álcool 70%. Me dá a mão.

Os dois estão atônitos.

— Anda, me dá a mão!

Olham-se; sem saber o que fazer, esticam a mão. Ela espraia o álcool e entrega o celular.

— Agora, sim.

Eles pegam o celular. E, antes de ir:

— Vou lhe dizer uma coisa, minha senhora: minha saúde está perfeita. Nem uma tossezinha. Nem um espirro.

Ela devolve.

— Mas eu não. Fui diagnosticada com covid-19 hoje. Estou assintomática.

Desconfiados, os dois dão um passo pra trás.

— Espero que senhora fique bem.

— Eu também — diz ela, olhando-os enquanto correm.