domingo, 21 de abril de 2024

Poema sem título

São tantas as poucas coisas

Rápidas e pequenas

Que não há dia que dê

Pra se viver apenas

 

Às pressas, a vida

Passa no destempo

Tantas poucas coisas

Rápidas e pequenas

Demandam tempo

 

Adeus, poema

Agora já não és mais nada

Só outra coisa pouca rápida e pequena

A me tomar a madrugada.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

poeminha sem título

 

A loucura é tal

                Que nos engana

Se sentir normal

                Pode ser sintoma

 

Se você se sente assim

                Procure um médico

Não seja cético

                A solução está aí

 

Leia a bula:

loucura é sal

Pode estragar o tempero

                Use sem exagero

 

Dose bem a loucura

                Que ela faz bem

E não se esqueça também:

                Ser normal tem cura

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

domingos

 Felizes são os domingos

                Dias de riso e festa

A que se prestam os amigos.

 

Domingos vestem domingo

                E note-se a importância do fato:

Um dia sem farda ou sapato.

 

Domingos têm seus sons:

Brega, funk, rock, samba, frevo…

Quem disse que domingo é sossego?

 

Domingo é gostoso namorar

                No balanço da rede, embalado na cama

Domingo é gostoso pra quem ama.

 

O sabor de domingo é na lata:

                Galeto cerva churras

Sarapatel feijuca salada

                — que é pra manter a postura!

 

Domingo peida-se à vontade

                Vô, vó, pai, mãe, tio, tia

E a pequena caçula, constrangida.

 

Domingo é massa, pena que finde.

                Coube à segunda — coitada

O fardo de ser o dia seguinte.

sábado, 21 de agosto de 2021

Aquele bordô

 

Aquele bordô

                                                                               guardado há mais de vinte anos

era lembrança que Glória guardava da França, quando lá esteve nos idos dos anos 80

                sua última viagem com Chico

                               mostrava fotos, sorriam: Chico, seu grande amor, os irmãos, amigos mais próximos, a Torre Eiffel, o Sena... Tempos depois, Chico adoecera. Glória sentiu. Envelheceu. Quando Chico se foi, era Glória já uma senhora frágil, embora ainda sorridente. Contava as viagens, lembrava, apontava nas fotos, Paris era uma festa...

                O bordô ficava no bar da estante, na sala.

Glória havia parado de beber, nunca fumara, mas orgulhava-se do bordô

                mostrava detalhes do rótulo, lembrava.

                               Aquele bordô

                                                               desconfio

                era um troféu, ao fim. Glória exibia-o a todos, filhos, netos, bisnetos. Lembrava Paris, uma festa, esquecia alguns detalhes, nomes, descrições, a cor dos olhos de seu primeiro marido. Chico tinha ciúmes, mas adorava seu longo lilás, com renda francesa que ela vestia agora

                                               broche de pérolas acima do busto, brincos e colar combinados com o broche. Uma maquiagem discreta e elegante punha-lhe na face certa volúpia discreta.

                Ligou o som.

                                                               I love paris in the spring time

I love paris in the fall

                               Chico se aproximou.

                — Um bordô? — Glória alegrou-se.

                — É que você fala tanto nele...

                                                               Beberam, dançaram. Depois, sentaram-se à mesa, conversaram alegremente, de pilequinho. Glória mostrou-lhe as fotos; Maurinho, o mais brincalhão dos irmãos; apontou, sorriu, bebeu

                                                               de pilequinho

                               A enfermeira avisou a hora.

                — Dona Glória, já é tarde. Precisamos desligar o som.

                                               feliz

                                                               feliz

                — Sim, entendo perfeitamente.

                A enfermeira sorriu.

                — Dona Glória, dona Glória, a senhora é muito danada!

                                               feliz

                                                               feliz

                — Uma espoleta, minha filha.

                Sorriram. A enfermeira levou-a ao quarto.

                                               feliz

                                                               feliz

                — Feliz aniversário, dona Glória.

                Entregou-lhe uma pequeníssima caixa, cuidadosamente embrulhada para presente. Nada caro, como a senhora estava acostumada. Uma lembrancinha, barata, do meio da rua, uma bijuteria que Glória segurou com alegria

                                               feliz

                                                               feliz

                — Obrigada!

                Fechou a porta, pôs o bordô no bar da estante, garrafa deitada. Na cama, Chico a esperava, ansioso.

domingo, 21 de março de 2021

Canção cavalaresca pr’uma alma decaída

Nem só de estupidez

São os atos estúpidos.

Pergunte a quem fez:

 

 “Doença grave se avizinha;

Que faremos, capitão?”

“Nada! É uma gripezinha!”

 

“Mas mata aos montes

Nos países por que passa.”

“Conversa da imprensa, trapaça!”

 

“Senhor, estão os nossos a morrer;

Em breve, serão pilhas.”

“Milagres, não posso fazer.”

 

“Senhor, não seria razoável

Nos precavermos com vacina?”

“Jamais! Temos cloroquina!”

 

“Mas, senhor, que funcione

Não indicam as pesquisas.”

“Pouco importa! Vale a futrica!”

 

“Precisamos de medidas profiláticas.

O senhor deve liderar a nação.”

“Pronunciarei contra máscaras

E em prol da aglomeração.”

 

“Indiligente! Morte o povo sofre

Faltará oxigênio...”

“Não pra quem não é pobre.”

 

“Desalmado! Como... Como

podes ser tão vil?”

“Cala, ou processo ponho-te!”

 

“Não te abala

Que mal faças?”

“Cala, que me pagas!”

 

“Foges ao dever!

Te acovardas! Prevaricas!”

“E tu és um maricas!”

 

“Governadores, a ti,

Pedem ajuda.”

                “Mimimi.”

 

“Insisto, capitão: a ti

Recorrem os que precisam.”

                “E daí?”

 

“Ainda uma vez, mandrião:

Acode os hospitais!”

“Cancelei o kit intubação.”

 

“Clamam-te mito, és um rato.

Serás julgado tempo além.”

“Para livrar-me de tal fato

Ponho a culpa em alguém.

 

E se ainda me afrontas

Com termos de baixo calão

Sejam tais palavras tua perdição:

Processo-te por ferir-me a honra.”

 

“A honra? Que honra, ressentido?

Ditador, pulha, alma decaída,

Delinquente, asno, pequi roído,

Cretino, parvo, genocida.”

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 amar

                de repente assim rebento

como a luz do sol nascendo o mar

                amar imenso

 

também amar o pequeno

                mergulho provisório

amar os fluidos

                               flatos abraços o tédio a fúria

                                               o amargo

                amar cura

 

descortinando grutas submersas

dissimulando desvendar mistérios

               

mesmo pouco amar o tempo

     e no limite do fôlego

              até o mais em nós atento

                   amar profundamente adentro

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Futuro

 o futuro pode ser lindo

sentaremos a uma grande mesa

                               compartindo

negrxs, pardxs, amarelxs

                bichas, sapas, héteros

sonhos comuns ao planeta

 

                               pode ser

 

por enquanto, temos

rifles e supremacistas

desfile de polícia aos trancos

marcha pacífica à mira

pretos e prantos

 

tudo pode ser lindo

mas temo

secretamente

que o futuro seja um plano

                               continuado do presente

sábado, 15 de agosto de 2020

Assalto

Rua pouco movimentada no Recife, começo da noite. Uma mulher anda apressada, quando surgem dois homens.

— Passa o celular!

Ela, tomada de susto:

— Calma, moço, vou passar.

— Anda, passa logo!

— Vou passar, moço, calma. Mas, antes, o senhor poderia se afastar um pouco.

— Quê!?

— Se afastar (repete enfatizando a pronúncia das sílabas por baixo da máscara).

Os homens se olham confusos. Ela continua.

— Um metro e meio, no mínimo. Distância segura.

— A senhora tá doida, é? Distância segura de quê?

— Meu filho, você vive na lua? Distância segura do corona.

O outro dá uma risada nervosa.

— Do quê?!

— Do coronavírus.

— Que corona o quê, minha senhora. Passa logo esse celular!

— Eu já disse que vou passar. Só quero que vocês mantenham uma distância segura...

— A senhora é doida mesmo, viu! Tá querendo problema, é?

O outro emenda:

— Além do mais, esse negócio de corona é coisa de comunista! Eu tou ligado na senhora!

— Engano seu, meu amigo. Isso é uma questão mundial de saúde.

— De saúde o quê, minha senhora. Isso é mentira da mídia, da Globo. Querem é derrubar o cara...

— Você é que pensa! Tem um monte de gente morrendo... (Ela altera a voz. O mais alto reage com firmeza:)

— Calminha aí, segura tua onda.

— Eu estou calma. Só quero que as coisas corram em segurança.

— Ó, seguinte: vamo parar com a brincadeira e resolver isso logo, com corona ou sem corona: passa o celular! (Enfatiza a pronúncia das sílabas.)

— Vou passar, mas o senhor pode virar o rosto pra lá quando falar? Pra não respingar saliva... (Enquanto diz isso, afasta os dois com a mão.)

— Mas a senhora é abusada, né não? Passa logo esse celular.

Ela tira o celular da bolsa e já ia entregando, quando:

— Eita, ia esquecendo.

Tira da bolsa um spray, espraia no celular.

— Que porra é isso? — o mais baixo fala, com cara de incrédulo.

— Álcool 70%. Me dá a mão.

Os dois estão atônitos.

— Anda, me dá a mão!

Olham-se; sem saber o que fazer, esticam a mão. Ela espraia o álcool e entrega o celular.

— Agora, sim.

Eles pegam o celular. E, antes de ir:

— Vou lhe dizer uma coisa, minha senhora: minha saúde está perfeita. Nem uma tossezinha. Nem um espirro.

Ela devolve.

— Mas eu não. Fui diagnosticada com covid-19 hoje. Estou assintomática.

Desconfiados, os dois dão um passo pra trás.

— Espero que senhora fique bem.

— Eu também — diz ela, olhando-os enquanto correm.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da série “tweets para a posteridade imediata”

Amigo meu esqueceu o celular no Uber ontem. Hoje de manhã cedo, o cara devolveu. E recusou os 50 reais de recompensa. Essas coisas nos fazem ainda crer na humanidade.

Pelo menos, até meio-dia. Depois, passa.

terça-feira, 9 de junho de 2020

La pandemia va

Alana ouviu a buzina.

— Meu deus, já? — disse em voz alta. Jogou a toalha na cama, pegou o vestido, pôs os sapatos. No espelho, passou batom apressadamente, ajeitou os cabelos. Nova buzina.

No carro, Juan falou, com algum sarcasmo:

— Algumas coisas nunca mudam.

Meia hora depois, estavam na fila de espera do restaurante.

— Parece que todo mundo teve a mesma ideia — comentou Alana, distraída. Juan bufou um monossílabo concordando. E, à medida que o tempo passava, esvaía-se também sua paciência. Logo estava andando para lá e para cá, tentando negociar um lugar à frente na fila, ao que a recepcionista recusou, fingindo não ter entendido. E, depois de longos cinquenta minutos de espera e uma fila ainda desconvidativa, desistiram, voltando para casa e para o tradicional pizza e vinho comprado num supermercado próximo.

O amor foi a sobremesa da fome. Despidos e cansados, Alana falou, leve:

— Você acha que o mundo será diferente, agora que vencemos essa pandemia?

Juan não respondeu; cochilava na cama. Alana, acostumada, não se importou, e leve ainda:

— Sei lá... sinto que as pessoas serão diferentes...



quinta-feira, 28 de maio de 2020

O espelho que há na noite


Quando despertar a alta madrugada

Na contramão dos relógios ocupados

Veste em ti o homem insondável

E adentra resoluto as incertezas

 

Contempla o mistério urdido

No eco das palavras arbitrárias

E como colhesse a erva e o trigo

Arranca do escuro as cores impensáveis

 

Para compor teu espelho irrevelado

Imagem que furtiva te decifra

Quadro retocado do teu rosto

 

E rosto e quadro retocados

Ressoa à sombra teu repouso

Na espera e limiar do próximo traço.


domingo, 10 de maio de 2020

A liberdade que tardia


Neste sofá, de quarentena

Enquanto passa a pandemia

Vejo a tarde, que vadia

Do horizonte me acena.

 

Tem a tarde essa alegria

E a leveza de uma pena

Pinta o céu de açucena

Como fizesse uma poesia

 

Me alegro com essa cena

Que no céu se avia.

Com a alma mais serena

 

Eu, que triste ia

Embalo agora esse poema:

A liberdade que tardia.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Setembro

Em algum ponto, a vida se dividiu. Ana pensava que fora em setembro. Tantas flores, tantos sóis para todas elas, as abelhas com mel e palavrões adocicados, transportando cada despedida como se fossem as próprias asas do tempo. As guerras mudavam mapas e limites citadinos, ruínas humanas deitadas na grama da primavera, e Ana pensava:

— Fora em setembro. As coisas estavam tão certas que só podia haver algo de errado.

O caminho da cama era o mesmo, as mesmas camas, "o trabalho tá um saco, preciso fazer algo", talvez um gole a mais para depravar essa barreira de pudor que entorpecia os seus nervos, uma saciedade momentânea, "o filme que via nas tuas mãos", tudo fora em setembro.

— O pior de tudo é esse algo setembrino que não passa, a guerra prolongada nas calçadas, a escada interminável para o céu. E a estrada vazia do tempo. "Tudo é tão pouco", poeta, e eu tentei me circundar de rosas, não imaginava que o teu lábio era essa grande fonte de palavras levadas pelo vento, tu, inscrito nas minhas pernas como "O grande fantasma do faz-me agora", o depois era conseqüência. Foi em setembro que tudo isso começou, não foi?

Ele não sabia.

— Ah, os homens! Nunca sabem dessas coisas. E pra falar a verdade, eu não ligo. Afinal, sempre andamos em círculo, o começo do depois é sempre o declínio do agora, e todos os setembros são iguais. Flores, abelhas, aquelas coisas chatas e melosas. Estou farta de tanta poesia.

Levantaram-se, "duas horas, duas e meia?".

— Não importa. Vou para a tua cama vazia, guardada no meu quarto. Dormirei um sono de primavera, sonharei se tiver tempo. Apague a luz quando sair, feche a porta. A chave, você pode jogar pela janela. Me deixa um cigarro. E só me acorde quando setembro passar.

A rua estava deserta. Setembro se escondia no horizonte, na indecifrável cor da claridade desbravando a noite, no quase murmúrio dos pássaros e das abelhas, na angústia do último trago. Paulo jogou o cigarro fora, olhou para a janela, colocou a chave do lado de dentro, fechou o basculante. Sorriu. Setembro era eterno.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Her photo on my screen

I see her in my bed
Wrapped in her dreams
But I couldn’t see about what they are
I listen her in the hall
Her steps are still songs to me
But I was deaf to their amplitude
I see her in the kitchen
Drinking wine, smiling to me
Her mouth mimetizing sweet words
As if happiness could be spoken
I can swear she is sitting at the table
Holding a glass
I look at her legs
They still give me thirst
I kiss her warmly
My arms are thousand arms
And I tell her about love

I told her
Because I believed I knew what love was
But love is a tempest
And I was really deep on it
To conceive its greatness

Now, I give a like on her photo

Shinning mercilessly on my screen.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Why I write

I write because the world is confusing
And my talk is a way to signify it

I write because somewhere
A child dies hungry
While we toast to daily small successes
Quenching other hungers

I write because right now
A man jumps from a bridge
Because he couldn’t understand the works
And he had to drink a lot
He had to run like crazy
Working like a slave
Earning money
And in the end, there was just him
Human, fragile, minimal, weary
Fighting the same fight
Caught on the ropes

I write because the day is a cell
With no door or window
And maybe I can knock down the walls
With the subtlety of a metaphor
Like a rose bleeding a landscape

I write as someone who shoots himself in the head

Waiting to live forever.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Seed in the summer

I woke in the morning
But the morning didn’t wake in me.
I see the sun shining
But it’s not shining for me.
I feel the refreshing air
Filling the space around
But my lungs now rather smoke cigarettes
I can hear a poem
Knocking on my brain’s door
I invite it to come
Desiring its words, blessed by pleasure
But they only have the manure of daily life
Offered to me as necessary and irrefutable food
And I need to get used to it
       -  to sprout cold and lonely
As a buried seed in the summer.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Corpo

(Poesia recuperada do antigo diário das marés)

O teu imenso mar de possibilidades,
          corpo,
é saber que tua forma é cotidiana
e que teu sangue pulsa
nas artérias das cidades.

O silêncio acumulado das tardes
— jogado a óleo de máquina em tua cara —
é a tinta com que constróis disfarces —
eterna criança brincando em teu jardim.

E à noite, espalhado pelo quarto,
                                          sorrateiro,
te confortas no abraço
de um cigarro qualquer,
buscando, na fumaça, tua matéria e o teu alento.

domingo, 18 de agosto de 2013

Minha garota atirou em mim


— Love u, costumava deixar-me envolver nos seus braços com essas palavras.

Lembro-me de como era macio o seu toque e como desejávamos sair daquele bairro, atingir o inatingível, fumar os cigarros proibidos, bebendo todas as noites nos bares escondidos da cidade.

O seu cabelo loiro era uma criança travessa em meus dedos, os olhos fixamente nos meus, tão carinhoso o seu gemido quando eu lhe enviava por trás, o vinho na mesa, e de repente: “bang-bang”, minha garota atirou em mim.

Eu atingi o chão, meu rosto de encontro ao piso da sala, "meu amor, love u", eu ouvia o barulho das águas escondidas nos seus olhos, "bang-bang", minha estrela, "with love", atirou em mim.

As coisas foram ficando muito pesadas, "ela me envolvia nos seus braços", a bagunça do quarto, a bebida sempre na mesa ao alcance das mãos, "bang-bang", eu, antes de atingir o chão, ainda disse que a amava. A carta estava em suas mãos, urgia matar, <i>My baby shot me down</i> era o tema que rolava na vitrola, e, na noite anterior, ela me disse que estava em depressão, sentia-se tão mal, gorda, chorou, queria trepar, acendeu um cigarro no meio da madrugada, conversou com os fantasmas de nossos sonhos. Um emprego melhor, talvez... Perguntou se eu queria sobremesa.

— Love u, baby, muito, apesar dos passos errados e do excesso de vinho e do meu corpo estar frio nesses dias. "É que eu ando meio triste ultimamente", <i>My baby shot me down</i>, "e queria trepar em excesso, beber em excesso, achar um palácio de sabedoria escondido nas tuas pernas", "bang-bang", "ou um outro mundo com mais fantasias", minha garota atirou "with love, baby".

— E eu te amo tanto, chorava ela hoje pela manhã, com tanta intensidade que me assusta abrir esta carta.

— Então não abra, eu disse.

— Eu não quero. É mais forte do que eu.

A igreja estava florida no dia da nossa união, os amigos todos lá, e agora o meu rosto colado no chão olha o seu doce sorriso de insanidade, "bang-bang", foi o que eu ouvi antes dela dizer "love u" e me envolver novamente em seus braços quentes. Eu tentei pegar sua mão, "meu amor", mas não consegui, tu já eras feita do que não é, as coisas mudaram tanto, baby.

Foram muitos dias nesse apartamento, os quadros já nem fazem tanta diferença, as contas já não formam pilhas ao lado do telefone, eu ainda a amo, meu rosto colado no chão, "baby", e ainda vi os seus passos em direção à porta, calmos, o pé da cadeira eu vi também, "with love, eternamente seu, Carlos".

Não consegui ver isso na carta, não conhecia nenhum Carlos até então. Ela me convidou pra sair no sábado, eu disse que preferia ficar em casa.

— Mas o que é isso?, ela perguntou quando chegou no meu quarto, as roupas pelo chão.

Disse que não era nada, era só uma aventura, e quando perguntei o que era aquela carta, ela me disse que não era nada, era só uma vingancinha besta.

E disse: "Eu te amo tanto, baby". Bang-bang, you shot me down, "nosso amor", bang-bang, I hit the ground, ainda pude ouvir o acorde melancólico que saía da garganta da cantora, bang-bang, that awful sound, "está escrito em nosso sangue", bang-bang, my baby shot me down.

Minha garota atirou em mim. "Me perdoa, meu amor."

E saiu, deixando a porta entreaberta.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Haicais da maledicência urbana



Festa no vizinho.
Quisera ser
Um frio assassino!

Olhando o céu
E seu esplendor
Pisei no cocô!

Estendida a mão.
Preparei uma esmola,
Mas era um ladrão.

Esbarrei, a esmo, na rua.
Ela sorriu
E me mandou pra puta que pariu!



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pessoas vão

Aos poucos e sempre, as pessoas vão.

A toda hora, por estradas, ruas, portas abertas...
Espremidas nas calçadas, penduradas nos apartamentos.
Contando histórias de lástimas e prazeres
— o que somos, além da metáfora de nós mesmos?

Amigos de longas datas se perdem nas agendas lotadas.
Amores eternos não duraram catorze versos,
E os próprios sonetos adormecem,
Como os sentimentos que repousam numa rima passageira.

Mas não há remédio:
É preciso ir, sempre.
Amanhecer novas lembranças,
Desaprender mágoas antigas,
Chorar outras feridas,
Aprender com o tempo redesenhando os espelhos.

E é tão imperioso ir
Que há, em cada ausência,
Um exercício de vazio insubmisso
Reinventando a permanência.