quarta-feira, 23 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Terça-feira Ingrata

Adalberto sempre amou o Carnaval. Desde o dia em que, criança pequena pendurada nos ombros do pai, debruçou seus olhos numa colombina colorida, que dançava alegremente uma marchinha há muito esquecida. O fulgor das cores, o ritmo efusivo das danças, as máscaras: tudo se espalhava pelo tempo, como um sorriso plantado na eternidade.

E eram tão profundas as marcas que essas pequenas felicidades tinham-lhe causado que, mais tarde, já homem feito, não podia evitar esses assomos da infância: dizia à esposa que só brincaria na sexta, os amigos do trabalho estariam todos lá, pegava até mal ele não ir logo na abertura oficial. Ela, de veneta, esbravejava, louca de ciúmes:

— Dia desses, tu não vai me encontrar mais aqui quando voltar.

A sexta estendia-se, e ele, invariavelmente, voltava no domingo, com um presente barato, reclamando de um mal-estar que iniciara na sexta mesmo, não tinha podido nem aproveitar bem esses dias. Entrava em casa falando sem parar, olhando os detalhes da estante, a foto dos filhos parecia estar mais amarela, se aquela almofada era nova, nunca a tinha visto antes. A esposa, tomada de orgulho ferido e orgulhosa pelo seu retorno, não respondia de imediato. Primeiro, ignorava-o, até que ele, conhecendo bem os trilhos do reatamento conjugal, parava de falar. Depois, tomado o banho e feitas as devidas reparações no corpo, que eliminam o fedor de bebedeira, a barba e outros traços do desbunde, punham-se na sala a ver TV, onde, também seguindo um espécie de roteiro obrigatório, iniciava a discussão. E, apesar de insistir que dormira na casa do Alfonsinho e que só não tinha voltado pra casa porque acordou muito mal e só se recuperou na madrugada de hoje, Adalberto sempre passava a primeira noite de seu retorno no sofá, o que considerava já uma aceitação da parte dela, premissa de que as coisas logo voltariam ao normal.

Um ano desses, Adalberto exagerou. Saíra para a sua tradicional sexta de abertura carnavalesca e só voltou na terça. Vinte e nove chamadas não atendidas no seu celular. Primeiro, estranhou o portão trancado; depois, o silêncio na casa. As panelas na pia, pratos sujos de comida, a cama desfeita. Na esquina, o vendedor ambulante de CDs tocava uma música triste do Michael Jackson, da época dos Jackson Five. Sentou-se no sofá, com a roupa que chegara da rua. Por instantes, não soube o que fazer, até que lembrou de D. Lurdinha.

— D. Lurdinha, Linda tá aí?

— Tá não, meu filho. Ela não está em casa, não?

Não estava na casa da mãe dela, nem da mãe dele. Nem na casa dos amigos mais próximos. Ninguém a vira nem soubera notícias. Adalberto andou de um lado para o outro na casa, sem saber direito o que pensar. De repente, num arroubo de desdém, tomou o caminho do bar do Pedro, na esquina de sua casa. Pediu uma cerveja e tomou-a em pé, no balcão mesmo. Pediu outra. Perguntou se o último bloco já tinha passado. O homem do outro lado do balcão, filho de seu Pedro, respondeu que passava em instantes. Adalberto esperou. E, quando o bloco passou, pôs-se a dançar, com a euforia de todos os carnavais juntos.

Foi quando reconheceu a colombina do outro lado da rua. Colorida, jogada nos braços da felicidade. Aproximou-se. Ela, vendo que ele chegava perto, encarou-o firmemente. Ele tomou-a nos braços, beijando-lhe a boca sofregamente.

— Linda, vamos voltar para casa. O Carnaval é uma alegria passageira, ilusória.

Mas ela, fervorosa na medida da música, preferiu seguir o bloco, em meio às máscaras e às cores que tudo consomem. 

domingo, 30 de outubro de 2011

À morte de um amigo

Chegaste calada,
       Senhora de tudo não viste
As faces molhadas.

Na madrugada, partiste
       E levaste
O que, estranhamente, inda existe.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A casa de subúrbio

Meu amanhecer, eu achava

Que o sol se escondia atrás do muro

Do muro lá de casa.

Uma casa de subúrbio, afastada,

Que não tinha nada

E era um mundo.

 

Ao crescer alguns segundos,

Percebi que o sol era mais longe

Mais longe do que tudo.

E a casa de subúrbio, afastada,

E que era um mundo,

Converteu-se em nada.

 

Pulei o muro, corri estradas

Atrás do entardecer desses subúrbios,

Entardecer que me encantava.

Encontrei mundos, uns muito

Outros nada,

Todos cercados por seus muros.

 

Hoje, ao passar por essa casa,

Como encontrasse um brinquedo esquecido

Esquecido na calçada,

Reencontro um sorriso indefinido

Do futuro que virou passado

Nesta casa de subúrbio.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Isabella entre as flores do jardim


Pela janela
Vejo Isabella
Entre as flores
E as cores
Tão singelas
Do jardim.



Entre ela e elas,
Pétalas amarelas
E carmim.



Pela janela
Do jardim
Meu amor por ela
É assim:
Aquarela
De todos os amores
Que nunca saberei dar cores.